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Honda CB1000F: como o passado das CB750F e CB900F ganhou uma nova vida

Publicado a 8 de Outubro de 2026, às 08h53  ·  8 min de leitura

O essencial

  • A CB1000F recupera o espírito das CB750F e CB900F dos anos 70 e 80 com uma interpretação moderna.
  • Takayuki Haramoto, antigo Large Project Leader das CB750 Hornet e XL750 Transalp, supervisionou o desenvolvimento.
  • O motor é derivado da Fireblade, combinando base mecânica moderna com identidade visual das CB clássicas.

A Honda CB1000F recupera o espírito das CB que marcaram o final dos anos 70 e os anos 80, mas fá-lo através de uma interpretação moderna que combina o design da série F com tecnologia, desempenho e engenharia contemporâneos. O desenvolvimento da nova naked foi supervisionado por Takayuki Haramoto, antigo Large Project Leader das CB750 Hornet e XL750 Transalp, que encontrou nesta moto uma oportunidade para ligar a sua própria história à de algumas das Honda mais emblemáticas da marca.

Quando Freddie Spencer e a Honda entraram no Campeonato AMA Superbike em 1981 com a CB750, Haramoto-San era ainda uma criança. Décadas depois, o engenheiro tornou-se Large Project Leader na Honda e assumiu a supervisão do desenvolvimento da CB1000F, uma naked que procura recuperar a essência das motos que ficaram associadas a ‘Fast Freddie’, sem transformar essa herança numa simples recriação retro.

A inspiração é evidente nas linhas da CB1000F, mas a base mecânica pertence claramente ao presente. O motor derivado da Fireblade, o quadro, a suspensão e os sistemas eletrónicos modernos colocaram novos desafios à equipa, precisamente porque transportar para os dias de hoje as proporções e a identidade visual das CB750F e CB900F exigia muito mais do que simplesmente copiar formas antigas.

A série F como ponto de partida

‘Com a CB1000F, replicar diretamente a CB750F/900F não era o objetivo principal’, explica Haramoto-San. ‘Desenvolvemos a CB1000F como a naked standard de referência do Japão; versátil e polivalente, adequada a qualquer ocasião. Ao refletirmos sobre o futuro da gama CB e, em particular, sobre a forma ideal de uma roadster standard e naked no Japão, inspirámo-nos nos elementos de design da série F.’

Esses elementos estão profundamente ligados à história das CB de estrada e competição. As motos que deram origem à linguagem visual da série F foram também associadas à resistência Bol d’Or, competição de 24 horas da FIM que emprestou o seu nome a algumas das versões mais emblemáticas. As CB750F e CB900F combinavam uma imagem próxima da cultura café racer com motores de elevada capacidade e uma ligação direta à experiência adquirida pela Honda nas pistas.

‘As CB750F e CB900F são, naturalmente, fascinantes. Em particular, o seu estilo elegante e dinâmico, que cobre toda a moto, desde o depósito de combustível até à secção traseira, como uma única forma integrada, representa um ponto de viragem no design de motos’, afirma Haramoto-San. ‘Continuam a ser distintas e apelativas ainda hoje. Os esquemas de cores também são únicos e magníficos. Além disso, considero especialmente interessante o facto de serem modelos Super Sport que incorporavam tecnologia da RCB1000 de resistência numa moto de produção.’

Foi precisamente essa atração que colocou a equipa perante uma questão essencial: como transportar para a era moderna aquilo que tornava aquelas motos tão especiais sem transformar a CB1000F numa peça de nostalgia?

Uma nova CB sem perder a essência da antiga

‘O ponto de partida foi determinar como traduzir essa atração intemporal e universal, como as formas simples e as superfícies limpas, para a era moderna’, explica Haramoto-San.

A resposta passou por recuperar uma das características mais marcantes das CB750F e CB900F: a sensação de que toda a moto é construída a partir de uma única forma contínua. Em vez de tratar depósito, zona central e traseira como elementos independentes, a equipa procurou integrá-los numa linguagem visual única, mantendo a fluidez que ajudou a definir as motos originais.

Essa abordagem obrigou, no entanto, a afastar-se da ideia de uma reprodução histórica. Antes de trabalhar especificamente na CB1000F, Haramoto-San e a sua equipa procuraram responder a outra questão: o que deveria ser uma CB no futuro?

‘Antes da “F”, refletimos sobre o que deveria ser uma CB no futuro, idealizando a forma perfeita de uma roadster standard’, afirma. O objetivo era criar uma moto com ‘a presença digna de uma moto de grande cilindrada’, mas sem sacrificar a facilidade de condução que sempre esteve associada à família CB.

Daí nasceu uma linguagem baseada no contraste. A CB1000F combina ‘uma dianteira poderosa e compacta’ com ‘uma traseira versátil e leve’, enquanto recupera aquilo que Haramoto-San considera ser o apelo essencial da série F: ‘as suas formas simples e superfícies limpas’.

O problema de modernizar uma silhueta clássica

Recriar a aparência de uma moto concebida há várias décadas torna-se particularmente complexo quando a engenharia moderna obriga a alterar praticamente tudo o que está por baixo da carroçaria.

‘Encontrámos dificuldades devido às diferenças entre os componentes dos modelos de 1979 e dos anos 80’, recorda Haramoto-San. As CB originais utilizavam um quadro de dupla viga inferior, admissão horizontal e um conjunto eletrónico extremamente simples quando comparadas com uma naked atual.

A CB1000F parte de uma arquitetura completamente diferente, com quadro tipo diamante, entrada de ar com fluxo descendente e uma quantidade muito maior de componentes e sistemas eletrónicos. Essa diferença tornou-se especialmente evidente no depósito de combustível, uma das peças fundamentais para reproduzir a identidade visual da série F.

‘As diferenças nas estruturas dos quadros revelaram-se particularmente desafiantes na modelação do icónico depósito de combustível’, explica Haramoto-San. Ou seja, mesmo os elementos que parecem mais simples numa fotografia tiveram de ser reinterpretados tendo em conta aquilo que existe por baixo deles.

É essa diferença entre aparência e engenharia que ajuda a explicar a filosofia da CB1000F. A Honda não procurou simplesmente construir uma CB antiga com componentes modernos; procurou criar uma naked atual cuja identidade visual tivesse raízes claras numa das épocas mais importantes da história da família CB.

Uma ligação pessoal à história da CB

A chegada da CB1000F também encerra um ciclo na própria história de Haramoto-San. A relação do engenheiro com as motos começou muito antes da sua carreira na Honda.

‘O meu fascínio inicial surgiu ao conduzir a Monkey do meu pai’, recorda. Mais tarde, o interesse cresceu através do manga Baribari Densetsu, cujo protagonista começa a sua aventura numa CB750F. Pouco depois, Haramoto-San já explorava por conta própria as estradas de montanha.

Na Honda, vários projetos acabariam por marcar a sua evolução profissional. ‘Como LPL, o desenvolvimento da CB750 Hornet de 2023 e da Transalp foi um marco muito importante’, afirma. Entre as pessoas que mais o influenciaram está Masatoshi Sato, LPL desses modelos e também da CBR1000RR Fireblade.

‘Aprendi imenso com o Sr. Masatoshi Sato… tanto enquanto designer como enquanto LPL’, recorda.

Curiosamente, as suas referências não estão centradas em designers de motos ou em determinadas marcas. ‘Como venho de uma formação em engenharia de conceção e não de design propriamente dito, não há designers ou marcas específicas que me ocorram imediatamente’, admite.

As influências surgem antes das suas próprias paixões. Haramoto-San aponta os instrumentos tradicionais da Fender, sobretudo Stratocaster e Jazz Bass, e, no universo dos veículos, as máquinas que o fascinaram no filme de animação Akira, lançado em 1988.

‘É por isso que conduzo uma NM4’, acrescenta com um sorriso.

Fora da Honda, mantém interesses que continuam ligados ao movimento, à música e à exploração. ‘Gosto de passear tranquilamente de moto, tocar guitarra e experimentar sintetizadores modulares’, afirma. Atividades diferentes, mas que, para Haramoto-San, permanecem ligadas às coisas que despertam a sua curiosidade.

Mais do que conduzir uma moto antiga

Quando lhe perguntam qual a moto de qualquer época que gostaria de conduzir, a resposta regressa precisamente ao período que ajudou a inspirar a CB1000F.

‘Gostaria de experimentar a atmosfera e a sensação de conduzir uma Z1/Z2 ou uma CB750F/900F dos anos 70, no auge da sua competitividade.’

A resposta é reveladora. Para Haramoto-San, conduzir hoje uma dessas motos não seria exatamente o mesmo que conduzir a máquina na época em que foi criada. Seria uma experiência histórica, mas já sem o contexto que lhe dava parte da sua magia. O que realmente gostaria de experimentar é a atmosfera, a sensação e a energia de estar aos comandos de uma dessas motos quando elas representavam o que havia de mais competitivo e desejável.

É também essa diferença que define a CB1000F. A nova naked não pretende substituir a experiência de uma CB750F ou CB900F clássica, nem fingir que o passado pode ser reproduzido. Em vez disso, procura recuperar aquilo que tornou essas motos especiais — as formas simples, as superfícies limpas, a presença e a ligação à competição — e reinterpretá-lo através de uma moto concebida para o presente.

A CB1000F acaba, assim, por ser mais do que o regresso de uma linguagem visual histórica. É o resultado de uma tentativa deliberada de perceber porque é que aquelas Honda continuam a despertar interesse décadas depois e de transportar essa essência para uma nova geração.

Imagens: Honda

Redação

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