Paraplégico mas imparável! 322 km/h com uma Hayabusa
O essencial
- Talan Skeels-Piggins, piloto paraplégico britânico, atingiu 322,27 km/h com uma Suzuki Hayabusa no aeródromo de Elvington em 19 de setembro.
- Primeira vez que um piloto de moto paraplégico ultrapassa 200 mph numa milha com partida parada.
- A Hayabusa foi profundamente modificada ao longo de 11 anos, com mais de 600 horas de trabalho pela equipa Mainline Motorsports.
Há velocidades que impressionam pelo número. Outras ganham um significado completamente diferente quando se percebe tudo o que foi necessário para lá chegar. No caso de Talan Skeels-Piggins, os 200,254 mph — 322,27 km/h — são o resultado de 11 anos de tentativas, problemas financeiros, acidentes, desenvolvimento técnico e, sobretudo, de uma Suzuki Hayabusa construída à medida das necessidades de um piloto paraplégico. No dia 19 de setembro, no aeródromo de Elvington, em Yorkshire, o britânico conseguiu finalmente ultrapassar a barreira dos 200 mph numa milha medida com partida parada, tornando-se no primeiro piloto de moto paraplégico a fazê-lo nessa disciplina.
A quinta passagem foi a que ficou para a história
A tentativa aconteceu durante um evento de velocidade da Straightliners, num dia em que as condições meteorológicas estavam longe de ser ideais. A chuva e o vento forte limitaram o tempo disponível para realizar as passagens e deixaram a equipa com uma janela de aproximadamente quatro horas durante a tarde. Ainda assim, Talan conseguiu realizar cinco tentativas, guardando para a última a velocidade que perseguia desde 2015.
Na quinta passagem, a Suzuki Hayabusa atingiu os 200,254 mph, equivalentes a 322,27 km/h. A marca foi obtida numa milha medida desde a imobilização, o que significa que toda a aceleração necessária para superar os 200 mph teve de acontecer dentro dessa distância. Um mês antes, o sul-africano Sampie Erasmus tinha estabelecido uma referência de 198,217 mph com uma Suzuki GSX-R1000, tornando a barreira das 200 mph ainda mais presente no ambiente das tentativas de velocidade.
Para Skeels-Piggins, no entanto, o desafio não terminava quando o acelerador deixava de estar aberto. A desaceleração era uma das partes que mais o preocupavam, precisamente porque a sua condição física significa que o controlo da moto é feito essencialmente através dos braços e da parte superior do corpo. Depois de passar os 320 km/h, era necessário conseguir parar a Hayabusa de forma controlada e segura.
‘Era a desaceleração que mais me preocupava, mas percebi que já levava 11 anos a querer fazer isto e, quando chegou o dia, decidi enfrentar o meu medo e tentar’, explicou Talan à MCN, segundo os relatos publicados após a tentativa.
Uma Hayabusa transformada para o piloto
Chegar aos 322 km/h não foi simplesmente uma questão de colocar um turbocompressor numa Hayabusa e abrir o acelerador. A moto foi profundamente modificada para que pudesse ser conduzida por Talan e para permanecer controlável durante uma aceleração extrema.
O projeto tinha começado em 2015, quando Skeels-Piggins recebeu uma Suzuki Hayabusa que precisava de ser reparada. Com uma preparação relativamente simples, escape aberto e uma revisão completa, conseguiu atingir 175,630 mph, demonstrando desde cedo que os 200 mph poderiam ser uma possibilidade. Mas transformar essa primeira tentativa numa realidade revelou-se muito mais complicado. O projeto acabou interrompido por falta de financiamento, acidentes e novas lesões, ficando a Hayabusa parada durante vários anos.
A mudança aconteceu no início de 2025, quando Talan voltou a contactar o engenheiro e piloto Lee Baxendale. A partir daí, Baxendale, o seu filho Jay e a equipa Mainline Motorsports retomaram o desenvolvimento da moto. O trabalho ultrapassou as 600 horas e envolveu alterações no chassis, suspensão e posição de condução, além da criação de soluções específicas para permitir que Talan permanecesse corretamente apoiado e controlasse a Hayabusa sem depender das pernas.
A preparação acabou por receber um turbocompressor, mas o desenvolvimento não começou por aí. A equipa trabalhou inicialmente numa configuração atmosférica, desenvolvendo o comportamento do chassis e a adaptação do piloto antes de acrescentar a potência necessária para atacar a barreira dos 200 mph. Também foram utilizadas soluções específicas para a posição das pernas e para a mudança de velocidades, incluindo um sistema que permitia ao piloto subir de relação através do botão da buzina.

O mais difícil não era apenas acelerar
A história de Talan torna-se ainda mais impressionante quando se percebe o percurso físico que está por detrás desta tentativa. O britânico ficou paraplégico na sequência de um acidente de moto em 2003, ficando paralisado do peito para baixo. Desde então, a sua ligação às duas rodas não só se manteve como evoluiu para a competição e para projetos destinados a ajudar outros pilotos com deficiência.
Ao longo da sua carreira sofreu acidentes graves, incluindo fraturas nas duas pernas, uma lesão particularmente séria na perna esquerda, fraturas da bacia e do esterno, a perda de um dedo e lesões nos polegares. A recuperação destes ferimentos é particularmente exigente para alguém que depende dos braços para se movimentar no dia a dia, algo que o próprio descreveu como uma das partes mais difíceis da sua trajetória.
É precisamente por isso que os 200,254 mph não podem ser separados da engenharia da moto. A adaptação não consistiu simplesmente em acrescentar comandos diferentes: foi necessário criar uma máquina que permitisse a Talan permanecer seguro e estável enquanto acelerava de zero até mais de 320 km/h numa distância relativamente curta. O resultado é tanto um exercício de preparação de uma moto de velocidade como de engenharia adaptativa.
Da competição à criação de oportunidades para outros
O projeto da Hayabusa é apenas uma parte da história de Skeels-Piggins. Em 2010, o britânico representou a Grã-Bretanha nos Jogos Paralímpicos de Vancouver como esquiador e, em 2012, tornou-se o primeiro piloto de motociclismo paraplégico a competir contra pilotos sem deficiência.
Em 2011, fundou também The Bike Experience, uma organização dedicada a proporcionar a pessoas com deficiências físicas a oportunidade de experimentar novamente a condução de uma moto. O projeto já ajudou mais de 550 pessoas através das suas atividades, criando uma ponte entre a deficiência e uma atividade que muitos poderiam considerar definitivamente perdida depois de uma lesão grave.
É nesse contexto que a marca de Elvington ganha outra dimensão. A Hayabusa que começou por ser uma moto reparada em 2015 passou por anos de desenvolvimento, ficou parada quando o projeto perdeu financiamento e acabou transformada numa máquina turbo preparada para uma tentativa de velocidade extrema. Do outro lado está um piloto que encontrou formas diferentes de continuar a fazer aquilo que já fazia antes do acidente.
No fim, o número que fica registado é 200,254 mph. Mas para lá desse número estão 11 anos de trabalho, mais de 600 horas de engenharia, cinco passagens num dia condicionado pelo tempo e uma moto concebida para que Talan Skeels-Piggins pudesse finalmente fazer aquilo que perseguia desde 2015: ultrapassar os 200 mph numa milha com partida parada.

Imagens: todocircuito
Ficha técnica
- Piloto
- Talan Skeels-Piggins
- Moto
- Suzuki Hayabusa
- Velocidade máxima
- 322,27 km/h (200,254 mph)
- Local
- Aeródromo de Elvington, Yorkshire
- Data
- 19 de setembro
Motociclismo · 74 artigos
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