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Ducati pode voltar a mãos italianas, mas o verdadeiro desafio será garantir o seu crescimento

Publicado a 16 de Setembro de 2026, às 16h50  ·  5 min de leitura

O essencial

  • Confindustria confirma estar a trabalhar num eventual cenário de aquisição da Ducati por empresários italianos, ainda sem venda anunciada pela Volkswagen.
  • A Ducati entregou 50.895 motos em 2025, menos do que as 54.495 de 2024, com volume de negócios a cair de €1.003 para €925 milhões.
  • Claudio Domenicali, CEO da Ducati, é destacado por Emanuele Orsini como peça central para eventual aquisição italiana da marca.
  • A Ducati integra o Motor Valley, ao lado de Ferrari, Lamborghini e Dallara, e representa o posicionamento premium global.

Confindustria trabalha numa eventual aquisição

A possibilidade de a Ducati voltar a ser controlada por empresários italianos ganhou novo peso em Itália depois de Emanuele Orsini, presidente da Confindustria, ter confirmado que a organização está a trabalhar nesse cenário. Não existe, para já, uma venda anunciada pela Volkswagen, nem uma oferta formal ou uma cordada italiana constituída para adquirir a marca de Borgo Panigale. O que existe é uma intenção assumida de preparar uma eventual operação caso a Ducati venha a sair do portefólio do grupo alemão.

A declaração de Orsini surgiu a 14 de setembro, durante a assembleia da Confindustria Emilia Area Centro, em Bolonha. O presidente da associação empresarial italiana afirmou que estão a trabalhar no dossier Ducati e manifestou o desejo de que empresários italianos possam ‘trazer a Ducati de volta para casa’. Orsini destacou ainda Claudio Domenicali, CEO da Ducati, considerando-o uma pessoa ‘extremamente capaz’ para liderar a empresa e garantindo que teria todo o apoio possível.

Ducati continua integrada no universo Volkswagen através da Audi

A Ducati faz parte do Grupo Volkswagen através da Audi e mantém uma posição de destaque dentro da indústria italiana, apesar de a propriedade ser alemã. A discussão sobre uma eventual mudança de mãos ganhou força num contexto de reorganização e dificuldades enfrentadas pelo Grupo Volkswagen, mas é importante separar as declarações de Confindustria de qualquer decisão efetiva de venda: até ao momento, não foi anunciado um processo formal de alienação da Ducati.

O interesse italiano tem uma forte componente simbólica. A Ducati é uma das marcas mais reconhecidas de Bolonha e da Emilia-Romagna e integra o ecossistema industrial conhecido como Motor Valley, ao lado de empresas como Ferrari, Lamborghini e Dallara. É precisamente nesse contexto que Orsini considera a Ducati um dos estandartes industriais do país e defende que uma eventual saída do universo Volkswagen não deveria significar a perda do centro de decisão para fora de Itália.

Mas adquirir a Ducati seria apenas o primeiro passo. A verdadeira questão seria garantir capacidade financeira e estratégica para manter o investimento necessário numa marca que compete globalmente num segmento premium e que envolve desenvolvimento tecnológico, competição, produção e distribuição internacional.

Os números mostram o que está em jogo

Os números mostram o que está em jogo

A Ducati terminou 2025 com 50.895 motos entregues em todo o mundo, menos do que as 54.495 de 2024. O volume de negócios também caiu de €1.003 milhões para €925 milhões, enquanto o resultado operacional passou de €91 milhões para €52 milhões. A própria empresa enquadrou estes resultados num mercado de duas rodas em contração, afetado por tarifas, taxas de câmbio desfavoráveis e pela transição para a norma Euro 5+.

Ainda assim, estes números mostram a dimensão da operação que qualquer eventual comprador teria de sustentar. Uma Ducati independente ou controlada por capital italiano continuaria a precisar de financiar novos motores, plataformas, eletrónica, desenvolvimento de produto, competição e expansão internacional, enquanto preserva o posicionamento premium que caracteriza a marca.

O debate, por isso, não se resume ao país de origem do proprietário. Uma eventual aquisição teria de responder também a uma questão empresarial: que estrutura teria capacidade para manter o nível de investimento necessário para que a Ducati continue competitiva a longo prazo?

Claudio Domenicali surge como peça central

A posição de Claudio Domenicali é particularmente relevante nesta discussão. O CEO lidera atualmente a Ducati e foi explicitamente elogiado por Orsini, que afirmou que o executivo ‘tem as ideias claras’ e que Confindustria lhe dará todo o apoio e suporte possível.

A importância de Domenicali também se enquadra nos resultados recentes da empresa. Apesar da quebra registada em 2025, a Ducati continua a apresentar uma operação global de grande dimensão e mantém uma estratégia centrada no posicionamento premium e na exclusividade. A empresa afirma ter mantido a prioridade na proteção do seu posicionamento e na excelência da gama mesmo perante um ambiente económico mais difícil.

É precisamente essa estrutura que uma eventual operação italiana teria de preservar. A identidade italiana da Ducati já existe independentemente da nacionalidade do acionista, enquanto a capacidade para financiar a sua evolução tecnológica e desportiva dependeria sobretudo dos recursos e da estratégia do futuro proprietário.

A Ducati é também uma peça do Motor Valley

A discussão ultrapassa, por isso, o mercado de motos. Para Confindustria, a Ducati faz parte de um ecossistema industrial mais amplo e altamente especializado que concentra na Emilia-Romagna algumas das principais empresas ligadas ao setor automóvel e ao motorsport.

Orsini comparou a importância da Ducati à de Ferrari, Lamborghini e Dallara e deixou uma mensagem clara sobre o valor atribuído a estas empresas para a região: ‘Se perdermos também estas empresas, significa que não percebemos nada’.

Por enquanto, porém, a Ducati continua onde está. Não há uma venda anunciada pela Volkswagen, nem uma operação italiana formalmente apresentada. O que mudou foi o nível de discussão pública: a possibilidade de encontrar capital italiano para uma eventual aquisição deixou de ser apenas uma especulação externa e passou a ser assumida pelo próprio presidente da Confindustria como um dossier que está a ser trabalhado.

A questão, portanto, já não é apenas saber se seria possível comprar a Ducati. Se algum dia a operação avançar, será igualmente necessário perceber quem terá capacidade para financiar a próxima década de desenvolvimento da marca sem comprometer a estrutura, a tecnologia e os programas desportivos que sustentam a sua posição internacional.

Ficha técnica

Motos entregues em 2025
50.895
Motos entregues em 2024
54.495
Volume de negócios 2025
€925 milhões
Volume de negócios 2024
€1.003 milhões
Resultado operacional 2025
€52 milhões
Resultado operacional 2024
€91 milhões

Redação

Motociclismo  ·  28 artigos

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