A nomeação de Günther Steiner como CEO da Red Bull KTM Tech3 em MotoGP, a partir de 2026, surpreendeu tanto os adeptos como os bastidores do desporto motorizado. Depois de uma carreira multifacetada que o levou do Mundial de Ralis à Fórmula 1, Steiner traz uma nova perspetiva ao campeonato de motociclismo mais prestigiado do mundo. O seu espanto perante a realidade de MotoGP – tanto dentro como fora da pista – já está a provocar reflexão no paddock, especialmente após a primeira metade da temporada de 2026.
No rescaldo do Grande Prémio da Catalunha, onde a Tech3 terminou com Maverick Viñales em sétimo lugar a escassos 9,2 segundos do vencedor Francesco Bagnaia (Ducati), Steiner partilhou as suas impressões sobre as diferenças abismais entre o universo das quatro e das duas rodas. O espanhol Pedro Acosta, colega de equipa de Viñales, cruzou a meta em nono, enquanto a equipa arrecadou pontos vitais para o Campeonato do Mundo de MotoGP. Bagnaia consolidou a liderança no campeonato, com 188 pontos, seguido de Jorge Martín (Pramac Ducati) com 171, num duelo que promete marcar o resto da época.
A chegada de Steiner à Tech3 representa também uma reviravolta nas ambições da equipa satélite da KTM, que procura afirmar-se no restrito grupo da frente. O próprio Steiner admite que a sua experiência prévia na Fórmula 1 pouco o preparou para a especificidade do MotoGP. “Como os pilotos são diferentes aqui ou que profissão tão distinta é esta em comparação com a de um piloto de carros, isso surpreendeu-me”, confessou o dirigente de 61 anos, destacando o impacto físico e mental exigido aos pilotos de MotoGP. “Talvez tenha subestimado, por ignorância, quanto treinam realmente estes rapazes em cima das motos e o que fazem. Mas se pensarmos bem, é claro: aqui o piloto tem muito mais influência no resultado do que nas corridas de carros. Uma das minhas perguntas tontas foi: ‘O que fazem entre corridas para se prepararem?’”, partilhou Steiner.
A resposta dos seus pilotos foi inequívoca: “Ando de mota”, disseram-lhe, referindo-se ao treino de motocross para apurar equilíbrio e reflexos. “Na Fórmula 1 não podes fazer isso. Não há nada que seja sequer parecido. Lá, tens de ir para o simulador. Aqui, a exigência física é incomparável”, explicou Steiner, salientando também o risco de lesão: “Se bateres no simulador de Fórmula 1, fazes reset e continuas. Se caíres no motocross, pode ser preciso uma ambulância. Essa foi a maior surpresa para mim.”
No entanto, nem tudo são elogios. Steiner identifica um claro défice de aposta no marketing e na promoção do produto MotoGP, comparando com a máquina mediática da Fórmula 1. “MotoGP vive no mundo de: queremos correr de mota. Não vivem no mundo de: organizamos algo para as pessoas. Isso não é negativo, até é bom, porque estão focados no produto e isso nota-se. Mas esquecem-se completamente do resto à sua volta, das oportunidades comerciais e de dar algo mais aos adeptos”, analisou Steiner. “Só têm de mostrar o desporto ao público, não precisam de o vender – vende-se sozinho”, sublinhou, apontando para a necessidade de um maior investimento em relações públicas e comunicação, área onde a F1 tem departamentos vastos e especializados, contrastando com a realidade minimalista da maioria das equipas de MotoGP.
O futuro poderá, porém, trazer mudanças. A entrada da Liberty Media na estrutura acionista de MotoGP promete uma aposta redobrada na promoção global e no envolvimento dos fãs, numa altura em que o campeonato procura expandir mercados e captar novas audiências. Steiner acredita que a base está criada: “Os profissionais aqui são excelentes, as equipas muito bem preparadas. Falta apenas dar o salto do ponto de vista comercial.”
Em relação à sua integração no paddock das duas rodas, Steiner revela surpresa pela receção positiva: “Não esperava uma acolhida tão boa. Ninguém foi negativo comigo. Enquanto me derem uma oportunidade justa, estou satisfeito. Isso é algo que aprecio e respeito muito”, afirmou, mostrando-se confiante na adaptação e no futuro da Tech3 sob a sua liderança.
O campeonato segue agora para o histórico Grande Prémio dos Países Baixos em Assen, onde as lutas entre Bagnaia e Martín prometem continuar a incendiar o pelotão. Com a Tech3 a somar pontos e a crescer em competitividade, a chegada de Steiner poderá ser o catalisador que faltava para transformar a estrutura numa verdadeira contendora. A aposta passa não só pela performance em pista, mas também por uma nova visão fora dela, onde a promoção do MotoGP junto dos adeptos portugueses e internacionais pode finalmente ganhar a dimensão que merece.

