A Ducati só teve coragem de o fazer uma vez. Em 2008, a marca de Borgo Panigale quebrou todas as regras ao lançar uma moto que até hoje continua a ser um caso isolado na indústria: uma MotoGP verdadeira, homologada para circular na estrada. A Desmosedici D16RR não nasceu para alargar gamas nem para conquistar novos públicos. Foi criada como um manifesto técnico e emocional, diretamente ligado ao título mundial de MotoGP conquistado em 2007 por Casey Stoner.
A produção foi limitada a 1.500 unidades para todo o mundo, todas numeradas individualmente. O preço, já na altura, colocava-a fora do alcance da esmagadora maioria dos entusiastas, mas isso fazia parte do conceito. A D16RR não pretendia ser acessível, nem prática. Pretendia ser extrema. O seu motor V4 de 989 cc, com distribuição desmodrómica, era uma adaptação mínima da mecânica de competição, oferecendo mais de 200 cv quando libertado com o escape de circuito, números absolutamente irreais para uma moto de estrada naquele período.

A base técnica não escondia a sua origem. O quadro multitubular em aço seguia a mesma filosofia utilizada pela Ducati no Mundial. O painel de instrumentos replicava o das motos oficiais de corrida. As suspensões Öhlins representavam o topo absoluto da tecnologia disponível, acompanhadas por travões em aço que, apesar de abandonarem o carbono por imposição legal, mantinham uma abordagem puramente racing. Jantes forjadas Marchesini, carenagem integral em carbono e pneus desenvolvidos especificamente para este modelo completavam um conjunto que ainda hoje parece deslocado do mundo real.
Mais do que isso, a Desmosedici D16RR marcou a estreia de um motor de quatro cilindros numa Ducati de estrada, muitos anos antes de o V4 se tornar comum na Panigale ou na Multistrada. Em 2008, essa configuração era uma heresia para alguns e uma revelação para outros. Nunca foi uma moto confortável, nem indulgente. Era exigente, radical e assumidamente pouco prática. A sua função não era ser utilizada diariamente, mas sim existir como objeto absoluto de desejo.

Sempre que uma destas raridades surge no mercado, o impacto é imediato. Recentemente, uma unidade destinada originalmente ao mercado norte-americano foi a leilão nos Estados Unidos, mantendo-se em estado original e com pouco mais de 8.000 quilómetros registados. Com numeração devidamente certificada, a licitação ultrapassou o valor de reserva, situando-se em torno dos 55.000 dólares, um montante que, apesar de elevado, fica aquém do preço original e das expectativas associadas a uma MotoGP de estrada autêntica.
Não se trata de uma oportunidade acessível, mas no contexto das motos históricas, das séries irrepetíveis e das máquinas diretamente ligadas a um título mundial, começa a parecer um valor surpreendentemente contido. Sobretudo quando se recorda um facto essencial: a Ducati nunca mais voltou a fazer nada semelhante. Nem antes, nem depois.
Source: iconicmotorbikeauctions.com














