A mudança de controlo da Indian Motorcycle começou a produzir efeitos concretos — e duros — muito mais cedo do que muitos esperavam. A decisão de encerrar a unidade de Osceola, no Wisconsin, marca o primeiro impacto visível da saída da marca do perímetro direto da Polaris e expõe o lado menos glamoroso das grandes operações industriais no sector das motos.
A fábrica, responsável pela produção de motores, transmissões e diversos componentes estratégicos, deverá encerrar portas até ao final do ano, deixando cerca de 200 trabalhadores sem emprego. Durante anos, foi ali que nasceram os blocos que deram vida às Indian modernas, num equilíbrio delicado entre herança histórica e produção industrial contemporânea.
Com a reorganização do grupo, a produção de motores será transferida para Spirit Lake, no Iowa, uma unidade que faz parte do perímetro industrial incluído na venda da marca e que passará para a nova Indian independente. Do ponto de vista logístico e empresarial, a decisão é coerente: uma marca separada dificilmente manteria a sua base produtiva essencial sob controlo de um antigo proprietário. Mas a racionalidade financeira não apaga o impacto social nem a perda de uma unidade produtiva com peso local significativo.
A venda da maioria da Indian Motorcycle ao fundo Carolwood LP confirma a vontade da Polaris em recentrar a sua estratégia nos segmentos que hoje garantem maior rentabilidade: veículos todo-o-terreno, motos de neve e náutica. Para o grupo, a marca de motos deixara de encaixar numa lógica de crescimento rápido e retorno previsível. O negócio deverá ainda gerar uma mais-valia financeira adicional relevante quando estiver totalmente concluído.
A entrada de capital privado numa marca com mais de um século de história gera, inevitavelmente, desconfiança. O receio de desmantelamento, cortes sucessivos e esvaziamento de identidade faz parte do imaginário coletivo do sector. Ainda assim, a história do motociclismo mostra que nem todos estes processos têm um desfecho negativo. Em alguns casos, foram precisamente investidores externos que permitiram a sobrevivência e posterior relançamento de marcas que já não encontravam espaço dentro de grandes conglomerados industriais.
A Polaris, pela voz do seu CEO, defende que a separação permitirá a ambas as empresas operar com maior agilidade e foco. A narrativa oficial aponta para uma Indian mais livre para decidir, investir e inovar exclusivamente no seu universo, sem competir internamente por recursos com outras divisões do grupo.
Para liderar esta nova fase, a escolha recaiu sobre Mike Kennedy, um nome com profundo conhecimento do sector. Com um longo percurso na Harley-Davidson e passagem pela liderança da Vance & Hines, Kennedy assume o comando de uma estrutura com cerca de 900 colaboradores, incluindo o centro de investigação e desenvolvimento sediado na Suíça. A sua missão será delicada: preservar a identidade da Indian ao mesmo tempo que tenta reposicionar a marca num mercado em clara transformação.
O contexto não é favorável. O segmento das grandes custom e cruiser atravessa uma fase de retração, com um público envelhecido e dificuldade em captar novos motociclistas. A decisão recente de descontinuar a FTR, a proposta mais fora da caixa da gama, reforçou a perceção de que a marca se encontra num momento de encruzilhada estratégica.
O fecho da fábrica de Osceola é apenas o primeiro capítulo desta nova era. Resta perceber se a independência permitirá à Indian Motorcycle reinventar-se — ou se será apenas o início de uma contração mais profunda num mercado cada vez mais exigente.











