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Combustíveis em Portugal subiram mais de 160% em 30 anos e estão a mudar a forma como usamos as motos

Publicado a 19 de Setembro de 2026, às 09h30  ·  11 min de leitura

O essencial

  • Em 30 anos, a gasolina 95 em Portugal aumentou cerca de 162%, passando de 0,790 euros em 1996 para 2,072 euros em setembro de 2026.
  • A eficiência do consumo tornou-se critério importante: a diferença entre uma moto de 3,0 l/100 km e outra de 5,0 l/100 km representa 828 euros anuais em 20.000 km.
  • Os preços dos combustíveis em Portugal não subiram linearmente: enfrentaram quedas durante a crise de 2008-2009 e a pandemia, com volatilidade atual ligada ao contexto internacional.

Três décadas de aumentos e oscilações

Em 1996, um litro de gasolina sem chumbo 95 custava, em média, 0,790 euros em Portugal continental. Em 2005 já custava 1,149 euros, em 2010 tinha chegado a 1,373 euros e, em 2012, atingia 1,641 euros. Em 2025, a média anual foi de 1,719 euros por litro. Esta semana, entre 14 e 20 de setembro de 2026, a referência média nacional está nos 2,072 euros por litro, enquanto o gasóleo chegou aos 2,152 euros. Em três décadas, a gasolina 95 aumentou cerca de 162%, mas a história dos combustíveis não é uma linha ascendente: é uma sucessão de choques, quedas e recuperações que ajudaram a transformar a relação dos portugueses com o automóvel e, naturalmente, também com as motos.

O primeiro ponto importante é perceber que 0,790 euros em 1996 não representam simplesmente “79 cêntimos contra 2,07 euros”. O salário mínimo nacional era então de 272,30 euros por mês; em 2026 está nos 920 euros. Ou seja, o combustível ficou nominalmente muito mais caro, mas o rendimento mínimo também cresceu bastante. Em 1996, um depósito de 15 litros de gasolina custava cerca de 11,85 euros; hoje, ao preço médio atual, custa 31,08 euros. A despesa triplicou, mas o salário mínimo aumentou cerca de 238%. O combustível tornou-se, portanto, mais caro em termos absolutos, mas a sua evolução não foi tão desproporcional face ao rendimento mínimo como a comparação direta entre os preços por litro poderia sugerir.

É, no entanto, na utilização diária que a diferença se torna muito mais concreta. Consideremos uma moto que consuma 3,5 l/100 km. Em 1996, percorrer 10.000 km exigia aproximadamente 350 litros de gasolina e custava cerca de 276,50 euros. Ao preço médio de 2025, os mesmos 10.000 km custariam 601,65 euros. Com os 2,072 euros por litro desta semana de setembro de 2026, passam para 725,20 euros. Uma moto que consuma 5 l/100 km gastaria cerca de 395 euros em combustível para fazer os mesmos 10.000 km em 1996, contra 859,50 euros usando a média de 2025 e 1.036 euros ao preço atual.

É uma diferença que altera a matemática de utilização de uma moto, sobretudo para quem faz muitos quilómetros. E é precisamente aqui que a eficiência ganhou importância no mercado. Uma moto que consiga consumir 3,0 l/100 km gasta atualmente cerca de 6,22 euros por cada 100 km com gasolina a 2,072 euros/litro. Uma moto de 5,0 l/100 km precisa de 10,36 euros. Em 20.000 km anuais, a diferença chega a 828 euros. Não paga uma moto nova, obviamente, mas já representa uma parcela suficientemente significativa do custo anual para entrar nas contas de quem utiliza a moto diariamente.

Os combustíveis nunca subiram de forma linear

A evolução dos últimos 30 anos mostra vários ciclos distintos. Entre 1996 e 2000, a gasolina 95 passou de 0,790 para 0,870 euros por litro. Em 2005 já estava nos 1,149 euros e, em 2008, atingia 1,386 euros. A crise financeira trouxe uma queda para 1,235 euros em 2009, mas a recuperação foi rápida: 1,373 euros em 2010, 1,546 em 2011 e 1,641 em 2012.

Depois veio um período de alívio. Em 2015, a gasolina 95 custava em média 1,428 euros e em 2016 1,414 euros. Em 2019 estava nos 1,541 euros. A pandemia provocou uma nova queda: em 2020, a média anual foi de 1,444 euros. Em 2021 voltou a 1,641 euros e em 2022 atingiu 1,862 euros, o valor anual mais elevado da série recente. Desde então houve alguma normalização: 1,731 euros em 2023, 1,728 em 2024 e 1,719 em 2025.

O problema de 2026 é diferente porque não estamos simplesmente perante um preço elevado. Estamos perante elevada volatilidade. A gasolina 95 começou o ano perto de 1,656 euros por litro, caiu para 1,684 em fevereiro e chegou a 2,083 euros no início de abril. Depois recuou, voltou a aproximar-se dos 2 euros durante o verão e está nos 2,072 euros na semana de 14 a 20 de setembro. O gasóleo começou 2026 nos 1,534 euros e chegou agora aos 2,152 euros.

A dimensão do choque atual está relacionada com o contexto internacional. Em setembro de 2026, o Brent voltou a ultrapassar os 100 dólares por barril, num cenário marcado pela guerra no Médio Oriente, perturbações no transporte marítimo e preocupações com a oferta. A Reuters reporta que o Brent chegou a superar os 105 dólares durante a semana de 14 de setembro.

O que é que isto tem a ver com as motos?

Muito mais do que simplesmente vender motos “mais económicas”. O combustível influencia a decisão de compra, mas os números portugueses mostram que não é possível estabelecer uma relação direta entre preço da gasolina e número de motos vendidas.

Veja-se 2009 e 2010. O preço médio da gasolina 95 passou de 1,235 para 1,373 euros, mas as vendas de motociclos dispararam de 13.395 para 18.907 unidades. O crescimento não foi provocado pelo combustível: foi sobretudo consequência da alteração legislativa que permitiu aos titulares da carta B conduzir motos até 125 cc, criando um enorme impulso no segmento de baixa cilindrada. Em 2010, foram vendidas 12.733 motos até 125 cc, contra apenas 6.174 acima dessa cilindrada.

Este episódio é importante porque demonstra como uma alteração no custo de utilização pode ser ultrapassada por outros fatores. Quando a utilização urbana passou a ser mais acessível a um grupo muito maior de condutores, a procura aumentou apesar de a gasolina estar mais cara.

O mesmo acontece em sentido contrário. Em 2020, a gasolina caiu para 1,444 euros por litro, mas as matrículas de motociclos recuaram 4,1%, para 29.208 unidades. A explicação é evidente: foi o ano da pandemia, dos confinamentos e da paralisação de grande parte da atividade económica. Em 2021, com a gasolina a subir novamente para 1,641 euros, as vendas cresceram 16,1%, para 33.919 motos.

Também 2022 é um caso interessante. Foi o ano em que a gasolina atingiu uma média de 1,862 euros e o gasóleo 1,812 euros, mas o mercado de motociclos cresceu 12,2%, para 38.050 unidades. Em 2023 voltou a crescer 13,7%, para 43.276 unidades, e em 2024 chegou às 44.670. Em 2025 houve uma ligeira queda de 1,5%, para 43.995 motos.

E 2026 acrescenta outra camada à análise. Apesar do forte aumento dos combustíveis, o mercado de motociclos cresceu 23,6% no primeiro semestre, com 25.834 unidades matriculadas. O segmento até 125 cc cresceu 30,5%, para 12.109 unidades, enquanto as motos acima de 125 cc aumentaram 16,6%, para 13.287. Ou seja, até ao final de junho, não existe qualquer evidência de que os combustíveis caros tenham travado o mercado de motos novas.

Mas há uma mudança silenciosa: o consumo passou a valer dinheiro

É aqui que o impacto dos combustíveis se torna mais interessante.

Nos últimos 20 anos, o mercado português passou de uma realidade onde uma moto de 600 ou 1000 cc podia ser escolhida essencialmente pela performance, preço e utilização prevista, para um mercado em que consumo, autonomia e custo por quilómetro têm muito mais peso na decisão de compra de determinados clientes.

Não significa que os portugueses tenham deixado de comprar motos grandes. Pelo contrário: em 2025 foram matriculadas 23.316 motos acima de 125 cc, mais 3,9% do que em 2024, enquanto as até 125 cc caíram 7,3%.

Significa antes que o mercado se dividiu. Para quem compra uma moto para deslocações diárias, o consumo é uma variável económica. Para quem compra uma moto de lazer, uma diferença de 1 ou 2 l/100 km pode ser muito menos importante.

É por isso que uma 125 cc capaz de consumir perto de 2 l/100 km pode ter hoje uma vantagem económica muito concreta sobre uma moto de 700 ou 900 cc que consuma 4,5 ou 5 l/100 km. A diferença pode parecer pequena numa viagem, mas torna-se significativa quando multiplicada por 15.000 ou 20.000 km anuais.

Uma 125 cc a 2,2 l/100 km, por exemplo, consumiria 330 litros em 15.000 km. Ao preço atual de 2,072 euros, seriam cerca de 684 euros. Uma moto de 5 l/100 km precisaria de 750 litros, ou cerca de 1.554 euros. A diferença anual seria superior a 870 euros apenas em gasolina.

E as scooters?

O efeito é ainda mais evidente no universo das scooters, porque a sua utilização está frequentemente associada à mobilidade urbana e deslocações pendulares. A escolha de uma scooter não depende exclusivamente do preço do combustível, mas a possibilidade de fazer dezenas de quilómetros diariamente com consumos baixos aumenta o argumento económico deste tipo de veículo.

O crescimento das 125 cc portuguesas na última década é significativo. Em 2010 foram matriculadas 12.733 motos até 125 cc, contra 6.174 acima dessa cilindrada. Em 2017 eram 14.514 contra 10.299. Em 2025 foram 20.219 contra 23.316. A proporção mudou, mas o segmento 125 continuou a representar uma parte enorme do mercado.

Não seria correto atribuir esta evolução apenas aos combustíveis. A legislação, o congestionamento urbano, o estacionamento, os custos dos automóveis e a alteração dos hábitos de mobilidade tiveram igualmente um papel importante. Mas os combustíveis reforçam a lógica económica: quanto mais caro for percorrer um quilómetro de carro, maior é a vantagem potencial de uma moto ou scooter eficiente.

O carro é, na realidade, o grande beneficiário indireto da subida dos combustíveis… ou a moto?

Uma comparação simples ajuda a perceber o fenómeno. Considerando apenas combustível, um automóvel que consuma 7 l/100 km, ao preço atual de 2,072 euros/litro, gasta 14,50 euros por cada 100 km. Uma moto a 3,5 l/100 km gasta 7,25 euros. Em 20.000 km anuais, a diferença é de aproximadamente 1.450 euros.

Mesmo acrescentando seguro, pneus, manutenção e outros custos, esta diferença de combustível ajuda a explicar por que razão a moto continua a ter um argumento racional como veículo de mobilidade, além da componente emocional e recreativa.

Mas há uma contradição interessante: a subida do combustível não está necessariamente a empurrar o consumidor para a moto nova. Pode simplesmente fazer com que utilize mais a moto que já tem, reduza viagens desnecessárias ou procure modelos mais económicos quando chega o momento de trocar de veículo.

É uma distinção importante para compreender o mercado.

O problema atual não é apenas o preço: é a imprevisibilidade

Em 2026, a maior preocupação para quem utiliza uma moto diariamente talvez não seja sequer o valor absoluto de 2,07 euros por litro. É não saber onde esse valor estará dentro de três meses.

A gasolina passou de 1,656 euros no início de janeiro para mais de 2 euros em setembro. O gasóleo passou de 1,534 para 2,152 euros no mesmo período. Para quem faz 20.000 km por ano, uma moto de 4 l/100 km precisa de 800 litros. Cada aumento de 10 cêntimos por litro representa mais 80 euros por ano. Um aumento de 50 cêntimos representa 400 euros.

É precisamente esta volatilidade que torna o consumo uma característica cada vez mais relevante. Uma moto económica oferece alguma proteção contra os ciclos do petróleo. Não elimina o problema, mas reduz a exposição.

E existe ainda outro fator: os impostos representam uma parte muito significativa do preço final. Num boletim da ERSE relativo a fevereiro de 2025, os impostos representavam 53,7% do preço médio da gasolina 95, enquanto a cotação e o frete correspondiam a 30,6%. Os restantes custos incluíam comercialização, biocombustíveis e logística.

Isto explica por que razão uma queda do petróleo nem sempre chega integralmente ao consumidor e, inversamente, por que razão uma subida internacional pode ter um impacto significativo no preço final.

Então, os combustíveis caros estão a matar o mercado das motos?

Os dados portugueses dos últimos 30 anos não permitem dizer isso.

O mercado passou de 12.275 motociclos matriculados em 1996 para 44.670 em 2024 e 43.995 em 2025. Houve períodos de forte crescimento e períodos de queda, mas não existe uma relação simples em que cada subida da gasolina resulte numa queda das vendas.

O que os combustíveis caros fazem é alterar a equação de utilização. Uma moto de baixo consumo torna-se mais interessante para quem depende dela diariamente. A autonomia ganha importância. O custo por quilómetro passa a ser uma característica comercial mais relevante. E os modelos de baixa cilindrada, especialmente 125 cc, podem beneficiar de uma combinação de baixo consumo, preço de aquisição e facilidade de utilização.

Ao mesmo tempo, quem compra uma moto de alta cilindrada para lazer pode aceitar pagar muito mais por quilómetro porque está a comprar outra coisa: desempenho, conforto, viagens, emoção ou simplesmente o prazer de conduzir.

A história dos últimos 30 anos mostra, portanto, uma conclusão menos óbvia do que “a gasolina está cara e as pessoas compram motos”. O combustível tornou-se demasiado caro para ser ignorado, mas ainda não é suficientemente determinante para comandar sozinho o mercado. O que mudou foi o peso que o custo de utilização passou a ter na decisão.

E em setembro de 2026 há uma razão adicional para olhar para este tema com atenção. Com a gasolina perto dos 2,10 euros e o gasóleo acima dos 2,15 euros, enquanto o petróleo continua sujeito a uma forte instabilidade geopolítica, a eficiência deixou de ser apenas uma vantagem económica: tornou-se uma forma de reduzir a exposição do condutor a um mercado sobre o qual tem praticamente nenhum controlo.

Para o mercado das motos, isso não significa necessariamente motores cada vez mais pequenos. Significa que consumo, autonomia, eletrificação e custo total de utilização vão continuar a pesar cada vez mais ao lado da potência, do equipamento e da emoção. E, olhando para a evolução das vendas portuguesas, é precisamente essa combinação entre racionalidade e paixão que explica por que razão as motos continuam a crescer mesmo quando abastecer deixou de ser barato.

Fonte/dados: PORDATA/DGEG (preços médios dos combustíveis em Portugal); ACAP (matrículas e evolução do mercado de motos); ERSE (estrutura dos preços dos combustíveis e comparação europeia)

Redação

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