Marcas de motos que foram muito além das duas rodas: Os negócios que existem para lá das motos
O essencial
- Honda, Yamaha, Suzuki, Kawasaki, Ducati, KTM, BMW, Piaggio e MV Agusta são exemplos de empresas que foram muito além das motos.
- Honda começou em 1947 com um motor auxiliar em bicicletas e evoluiu para automóveis, aviação e máquinas industriais.
- Yamaha Motor nasceu em 1955 separada da Yamaha Corporation e atua em náutica, robótica e veículos recreativos, além de motos.
Há fabricantes que associamos imediatamente às motos, mas que há muito deixaram de viver apenas sobre duas rodas. Honda, Yamaha, Suzuki, Kawasaki, Ducati, KTM, BMW, Piaggio e MV Agusta são exemplos de empresas cuja história revela algo bastante diferente: algumas começaram noutras indústrias antes de construírem a sua reputação no motociclismo, enquanto outras usaram a experiência adquirida com as motos para entrar em automóveis, náutica, bicicletas, robótica, motores industriais, aviação ou até eletrónica.
E essa diversidade não é apenas uma curiosidade histórica. Em muitos casos, explica a própria identidade tecnológica das marcas que hoje conhecemos pelas suas motos.
Honda: Das bicicletas motorizadas aos automóveis, aviões e máquinas industriais
A Honda é provavelmente um dos exemplos mais claros de uma empresa que transformou a experiência adquirida nas duas rodas numa atividade industrial muito mais abrangente. A história começou em 1947 com um motor auxiliar montado em bicicletas e, pouco depois, com a produção de motos propriamente dita. Mas a Honda nunca encarou o motociclismo como o destino final da empresa.
A entrada nos automóveis aconteceu em 1963, enquanto a divisão de Power Products levou a marca para uma enorme variedade de aplicações, incluindo motores, geradores, bombas, máquinas de jardinagem, equipamentos agrícolas e motores fora de borda. A Honda acabaria também por entrar na aviação com o HondaJet, levando a capacidade de engenharia da empresa para um setor completamente diferente.
Hoje, portanto, falar em Honda apenas como fabricante de motos é ignorar uma parte enorme do negócio. A empresa atua em automóveis, motos, produtos de força e energia, motores marítimos e aviação, entre outras áreas. E existe uma ligação tecnológica evidente entre muitas destas atividades: motores compactos, eficiência, controlo eletrónico, gestão térmica, materiais e produção em grande escala.
É também por isso que a Honda conseguiu transferir tecnologias entre segmentos com uma facilidade que poucas empresas do setor conseguem igualar.
Yamaha: a ligação entre motos, música, náutica, robótica e mobilidade
A Yamaha é um caso ainda mais curioso porque é importante separar duas empresas que partilham a mesma origem histórica: Yamaha Motor e Yamaha Corporation.
A Yamaha Motor nasceu em 1955 como uma empresa separada da então Nippon Gakki, hoje Yamaha Corporation, fabricante de instrumentos musicais. A primeira moto foi a YA-1, mas a nova empresa rapidamente começou a desenvolver uma atividade muito mais ampla.
Atualmente, a Yamaha Motor trabalha em mobilidade terrestre, náutica, veículos recreativos, motores, robótica e diversas soluções industriais. A sua área marítima inclui motores fora de borda, barcos e embarcações pessoais, enquanto a divisão de veículos terrestres abrange produtos como ATVs, ROVs e veículos de golfe.
E há uma ligação particularmente interessante entre estas áreas. A Yamaha Motor entrou nos veículos de golfe nos anos 70 e utilizou conhecimentos provenientes de diferentes áreas da empresa — incluindo motores, chassis e materiais utilizados na náutica — para desenvolver os seus produtos. A atividade de robótica levou a Yamaha para outro universo, com equipamentos de montagem eletrónica, robôs industriais e sistemas utilizados na produção.
É, por isso, uma das marcas que melhor demonstra como a engenharia desenvolvida para uma moto pode acabar aplicada em ambientes industriais que pouco têm a ver com uma estrada.
Suzuki: automóveis, motores fora de borda e mobilidade para além das motos
A Suzuki também tem uma história muito mais abrangente do que a sua imagem de fabricante de motos deixa perceber.
A empresa foi fundada em 1920 como Suzuki Loom Manufacturing, dedicada originalmente à produção de teares. Só décadas depois, em 1952, surgiu o Power Free, um veículo motorizado de duas rodas, e em 1954 a empresa passou a chamar-se Suzuki Motor Corporation.
A partir daí, as motos tornaram-se uma parte fundamental da identidade da Suzuki, mas os automóveis rapidamente ganharam um peso ainda maior. O primeiro automóvel, o Suzulight, surgiu em 1955 e abriu caminho para aquilo que hoje é a principal atividade da empresa.
A Suzuki também fabrica motores fora de borda para aplicações náuticas e desenvolve soluções de mobilidade destinadas a pessoas com necessidades específicas, incluindo cadeiras de rodas motorizadas e outros veículos de mobilidade.
É um excelente exemplo de uma empresa que não nasceu sequer nas duas rodas: começou nos teares, passou para a mobilidade motorizada e acabou por construir uma presença global em automóveis, motos e náutica.
Kawasaki: das aeronaves e turbinas às motos, jet skis e robôs
A Kawasaki é ainda mais radical neste capítulo.
A Kawasaki Heavy Industries nasceu como uma empresa industrial e de engenharia muito antes de as suas motos existirem. A sua história está ligada à construção naval, maquinaria pesada, indústria ferroviária e aeronáutica. A experiência adquirida na engenharia de motores e aeronaves acabaria por chegar às duas rodas.
É uma das razões pelas quais a Kawasaki tem uma relação histórica tão particular com a engenharia de motores. A empresa entrou na produção em massa de motos há mais de meio século, mas nunca deixou de ser um gigante industrial muito maior do que a divisão de duas rodas.
Hoje, o universo Kawasaki inclui aeronaves, motores, sistemas ferroviários, maquinaria industrial, robótica, energia e grandes sistemas de engenharia. No lado mais próximo do consumidor, a empresa produz não apenas motos, mas também veículos todo-o-terreno, side-by-side, jet skis e motores a gasolina.
Ou seja, a Kawasaki que vemos num concessionário é apenas uma pequena parte de uma empresa cuja engenharia também está presente em infraestruturas e equipamentos industriais de enorme escala.
Ducati: antes do desmodrómico houve rádios, eletrónica, câmaras e calculadoras
A Ducati é talvez uma das maiores surpresas desta lista.
Hoje, o nome Ducati está praticamente indissociável de motos desportivas, motores V2, Panigale, Multistrada e competição. Mas a empresa não nasceu para fabricar motos.
Os irmãos Ducati fundaram em Bolonha, em 1926, a Società Scientifica Radio Brevetti Ducati, dedicada inicialmente à eletrónica. Um dos primeiros produtos foi o condensador Manens, enquanto a empresa desenvolveu também equipamentos de rádio e tecnologia de comunicação.
Antes de produzir a primeira moto, a Ducati trabalhou ainda em mecânica de precisão e em produtos tão diversos como uma máquina de barbear elétrica, uma microcâmara fotográfica, uma calculadora e equipamento telefónico, rádio e ótico.
A transformação para fabricante de motos aconteceu no pós-guerra. Em 1946 surgiu o Cucciolo, inicialmente um pequeno motor para bicicleta, que marcou o início da Ducati como fabricante de produtos de duas rodas.
A ironia é interessante: parte daquilo que tornou a Ducati tecnologicamente distinta nas décadas seguintes — a atenção à precisão mecânica e à engenharia — já fazia parte da empresa muito antes de existir uma Panigale.
E a Ducati está novamente a alargar a sua presença para fora das motos. Desde 2018 que a marca trabalha no segmento das e-bikes em parceria com a THOK E-Bikes e, para 2026, anunciou uma nova gama mais abrangente de bicicletas de alta performance, incluindo bicicletas de estrada, gravel e e-MTB.
Até na mobilidade elétrica de competição a Ducati encontrou uma nova área de engenharia: desde 2023 é a fornecedora oficial das motos do MotoE, desenvolvendo a V21L como laboratório tecnológico para a eletrificação.
A Ducati, portanto, não é simplesmente uma empresa que passou das motos para as bicicletas. É uma marca cuja história começou na eletrónica, passou pela mecânica de precisão e acabou por transformar esse conhecimento numa das maiores referências mundiais do motociclismo.
KTM: das oficinas e peças industriais ao maior fabricante europeu de motos
A história da KTM é diferente, mas também demonstra como uma empresa pode crescer muito para além do produto que a tornou famosa.
A origem remonta a 1934, quando Hans Trunkenpolz abriu uma oficina em Mattighofen dedicada à manutenção de motos e automóveis. Depois da Segunda Guerra Mundial, a empresa entrou fortemente na produção de peças industriais e só posteriormente avançou para o fabrico de motos. A KTM como fabricante de motos nasceu em 1953.
Durante décadas, a identidade da KTM esteve profundamente ligada ao off-road. Enduro, motocross e competição ajudaram a construir a filosofia READY TO RACE que ainda hoje define a marca.
Mas a expansão do grupo tornou o negócio muito mais abrangente. A estrutura associada à KTM passou a reunir várias marcas de motos, incluindo Husqvarna Motorcycles e GASGAS, permitindo atuar em diferentes segmentos e filosofias de produto. A própria KTM descreve a evolução da empresa desde um fabricante de motos de todo-o-terreno até um grupo com uma presença muito mais ampla no mercado de duas rodas.
E há outro detalhe importante: KTM não significa apenas motos. A marca KTM também tem uma presença histórica no ciclismo, com bicicletas e e-bikes, enquanto o universo empresarial em redor do grupo austríaco expandiu a atividade para outras formas de mobilidade.
É, por isso, um caso interessante de uma empresa que nasceu próxima da reparação e produção industrial, construiu uma reputação gigantesca através das motos e acabou por criar um ecossistema de marcas e produtos muito maior.
BMW: uma das maiores empresas de automóveis que também construiu uma das grandes histórias das motos
A BMW deve entrar nesta lista, mas com uma ressalva importante: não começou pelas motos.
A BMW foi fundada em 1916 com raízes na indústria aeronáutica e na produção de motores de avião. Depois da Primeira Guerra Mundial, diversificou-se para outras áreas industriais e só apresentou a sua primeira moto, a R 32, em 1923. A produção automóvel chegou depois, em 1928.
Esta cronologia é particularmente interessante porque a imagem moderna da BMW é dominada pelos automóveis e pelas motos, mas a engenharia da empresa tem raízes na aviação.
Hoje, o BMW Group reúne BMW, MINI, Rolls-Royce e BMW Motorrad, sendo simultaneamente um dos grandes fabricantes mundiais de automóveis premium e um dos principais fabricantes premium de motos. O grupo tem ainda uma atividade financeira e de serviços de mobilidade muito significativa.
A BMW Motorrad é, portanto, uma divisão de um grupo automóvel gigantesco — e não uma empresa de motos que entretanto começou a fabricar carros.
Piaggio: a empresa que transformou a Vespa numa indústria de mobilidade
A Piaggio representa outro caminho completamente diferente.
A empresa foi fundada em 1884 e começou em setores industriais como a construção naval, ferroviária e aeronáutica. Só mais tarde entrou no mundo das duas rodas, tornando-se uma das maiores referências mundiais em scooters e mobilidade urbana.
Hoje, o Piaggio Group reúne marcas como Vespa, Piaggio, Aprilia, Moto Guzzi, Gilera, Derbi e Scarabeo, cobrindo scooters, motos e ciclomotores de diferentes segmentos.
Mas o grupo também possui uma divisão de veículos comerciais, com os modelos Ape e Porter. Ou seja, a empresa que milhões de pessoas associam à Vespa também fabrica veículos de trabalho e transporte ligeiro.
A aquisição da Aprilia e da Moto Guzzi em 2004 foi particularmente importante porque transformou o grupo numa potência europeia de duas rodas, juntando ao negócio das scooters marcas com uma identidade muito mais desportiva e premium.
MV Agusta: uma história que começou literalmente no céu
Se há uma marca que merece uma menção especial é a MV Agusta.
A empresa Agusta foi fundada em 1907 por Giovanni Agusta como fabricante e empresa ligada à aviação. A família dedicou-se inicialmente à manutenção e produção de aeronaves e chegou a fornecer aviões à força aérea italiana.
Foi apenas depois da Segunda Guerra Mundial, com as restrições impostas à indústria aeronáutica italiana, que Domenico Agusta decidiu concentrar-se também nas motos. A marca MV Agusta nasceu em 1945 e a primeira moto, a MV 98, apareceu nesse mesmo ano.
A partir daí, a MV Agusta construiu uma das histórias competitivas mais impressionantes do motociclismo, incluindo a era de Giacomo Agostini e dos motores de três cilindros.
É um caso fascinante porque a tecnologia aeronáutica não foi apenas uma parte esquecida da história da empresa: ajudou a formar a cultura de engenharia que viria a distinguir a MV Agusta.
Triumph: a marca que decidiu que as duas rodas seriam o centro do negócio
A Triumph é um caso diferente porque, ao contrário da Ducati ou da MV Agusta, a sua identidade moderna está muito mais diretamente concentrada nas motos.
A primeira Triumph surgiu em 1902 e a produção de motos rapidamente cresceu. A empresa chegou a trabalhar também com automóveis, mas em 1936 Jack Sangster assumiu o controlo e orientou a empresa novamente para uma estratégia centrada nas motos.
Isso torna a Triumph interessante precisamente pelo contraste com as restantes.
Em vez de usar o motociclismo como ponto de partida para construir um conglomerado de mobilidade, a Triumph moderna transformou a própria marca, a história e o estilo de vida associado às motos num negócio. A expansão para vestuário e lifestyle é hoje parte dessa estratégia, com coleções próprias de roupa e produtos associados à identidade Triumph.
É uma abordagem diferente: não é necessariamente uma diversificação industrial, mas uma diversificação comercial em redor da cultura da moto.
E o que é que isto diz sobre as marcas de motos?
A grande conclusão é que “fabricante de motos” pode significar coisas muito diferentes.
Honda e Suzuki construíram enormes negócios automóveis a partir de uma cultura fortemente ligada aos motores e à mobilidade. Yamaha levou a engenharia para a náutica, robótica, veículos recreativos e indústria. Kawasaki é um gigante industrial que tem nas motos apenas uma das suas muitas áreas. BMW construiu uma das maiores empresas automóveis premium do mundo e manteve a BMW Motorrad como uma divisão estratégica. Piaggio transformou a experiência industrial e aeronáutica numa gigante da mobilidade urbana. Ducati começou na eletrónica e na rádio antes de se tornar uma referência mundial em motos. KTM cresceu do universo das oficinas, peças e competição para uma estrutura de várias marcas de duas rodas. E MV Agusta trouxe para as motos a herança de uma empresa aeronáutica.
É precisamente por isso que reduzir estas empresas ao que vemos num concessionário pode ser enganador.
Por trás de uma Honda CB125R pode existir uma empresa que também constrói aviões. Por trás de uma Yamaha MT-07 está um fabricante de motores fora de borda e sistemas robóticos. Uma Kawasaki Ninja pertence a um grupo que constrói helicópteros, comboios e robôs industriais. Uma Ducati Panigale tem atrás de si uma empresa cuja história começou com condensadores e rádios. E uma MV Agusta nasceu de uma família que, antes de conquistar campeonatos do mundo, estava ligada à aviação.
No fundo, as duas rodas foram, para muitas destas empresas, muito mais do que um produto final. Foram um laboratório de engenharia, uma porta de entrada para novos mercados ou, em alguns casos, a consequência de uma transformação industrial provocada pelas circunstâncias da época.
E é precisamente essa mistura entre motos e outras áreas que ajuda a explicar por que razão tantas destas marcas conseguiram sobreviver durante décadas, reinventar-se e continuar relevantes muito para além daquilo que fazem sobre duas rodas.
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