Num momento em que a Ducati se prepara para uma profunda remodelação da sua estrutura noMundial de Superbike (WorldSBK), todas as atenções estão centradas na vaga que deverá ser deixada por Nicolò Bulega com a sua esperada mudança para o MotoGP em 2027. Bulega, de 26 anos, atualmente imparável no WorldSBK com impressionantes 21 vitórias consecutivas esta temporada, é amplamente apontado à equipa VR46 à medida que o MotoGP se prepara para a nova era dos motores de 850 cc. Com a saída de Bulega, a procura da Ducati por um substituto para a equipa oficial do WorldSBK desencadeou uma tempestade de especulação — e controvérsia.
Durante meses, o consenso entre os fãs e os bastidores era de que Jack Miller, cujo atual contrato no MotoGP com a Pramac termina em novembro, faria uma transição natural para o lugar no WorldSBK. Miller, um dos favoritos do público e antigo piloto oficial da Ducati, parecia a escolha óbvia. Mas essa narrativa foi abalada no passado fim de semana em Misano, quando o diretor desportivo da Ducati, Mauro Grassilli, revelou uma preferência por um piloto italiano para herdar o lugar de Bulega. A aumentar ainda mais a especulação, Franco Morbidelli, cuja forma recente tem sido dececionante, foi visto em Misano na companhia dos principais responsáveis da Ducati.
A possível preferência por Morbidelli em detrimento de Miller provocou indignação nas redes sociais e nos fóruns de fãs. A reação tem sido intensa, com os apoiantes a apontarem para os melhores resultados e para a personalidade magnética de Miller. Um comentário particularmente emotivo na página de Facebook da MotoGP News foi direto ao assunto: “O Franky está a ter dificuldades para bater o [Miller] este ano, e está numa Ducati.” Outro adepto não poupou palavras, declarando: “Contratar Morbidelli em vez de Miller seria um crime.” Outros seguidores reforçaram a mesma ideia, classificando Miller como “o melhor piloto e uma personalidade muito superior”, enquanto outro aproveitou para criticar o historial de quedas de Morbidelli, apelidando-o de “Crashbidelli”.
O argumento não é apenas emocional — assenta também em números e no historial recente. Miller conquistou três das suas quatro vitórias na carreira de MotoGP com a Ducati, em Jerez e Le Mans em 2021, e em Motegi em 2022, demonstrando uma ligação comprovada com o fabricante de Bolonha. O seu profundo conhecimento das motos Ducati e a sua capacidade de adaptação são vistos como ativos valiosos para uma equipa prestes a atravessar uma fase de transformação. “Eu escolheria Jack Miller porque tem uma relação muito boa com a Ducati, não apenas por ter sido piloto oficial e vencedor de GPs”, comentou outro adepto. “Além disso, a sua experiência com os pneus Michelin dar-lhe-á uma enorme vantagem no WorldSBK quando a categoria passar a utilizar pneus Michelin no próximo ano.”
Este último ponto é particularmente importante. Com o WorldSBK prestes a trocar os pneus Pirelli pelos Michelin ao abrigo de um novo acordo de cinco anos, o conhecimento de Miller sobre os compostos Michelin — adquirido ao longo de vários anos no MotoGP — poderá oferecer à Ducati uma vantagem imediata. Curiosamente, ao mesmo tempo que o MotoGP se prepara para trocar a Michelin pela Pirelli como fornecedor exclusivo na próxima temporada, as duas categorias vão inverter os seus fornecedores de pneus.
Entretanto, as credenciais de Morbidelli estão sob intenso escrutínio. O italiano tem tido dificuldades em encontrar competitividade nas últimas temporadas e, como os fãs não se cansam de salientar, não conseguiu superar Miller de forma consistente apesar de competir com equipamento semelhante. A perceção de que a Ducati poderá estar a privilegiar a nacionalidade em detrimento do desempenho está a alimentar ainda mais a contestação, com muitos a insistirem que a procura incessante da marca por talento italiano não deve acontecer à custa da competitividade e do carisma.
O que acontecer a seguir poderá definir a trajetória da Ducati tanto no MotoGP como no WorldSBK durante anos. Se a equipa optar por Morbidelli, corre o risco de alienar uma base de fãs fiel e abdicar de um piloto como Miller, que reúne tanto o currículo como a personalidade para liderar a equipa numa nova era. Mas o apelo de uma formação totalmente italiana e os potenciais benefícios comerciais associados poderão acabar por influenciar os decisores em Bolonha. A Ducati encontra-se numa encruzilhada e as apostas não poderiam ser maiores: acertar na escolha poderá consolidar o seu domínio; errar poderá desencadear uma reação negativa com impacto muito além dos limites do circuito.

